artigo · meninos e masculinidades

O que fazer quando um menino diz algo machista?

Um menino diz que hoje os homens são perseguidos, que o feminismo foi longe demais, que mulher só gosta de homem com dinheiro, que homem de verdade não chora. Ou repete uma frase de algum influenciador que encontrou no TikTok, YouTube ou Instagram.

O adulto ouve e precisa decidir o que fazer.

Corrigir? Dar uma bronca? Explicar por que aquilo é machista? Ignorar? Perguntar onde ele ouviu?

Essa cena está se tornando cada vez mais comum para pais, mães, professores e outros adultos que convivem com meninos. E talvez a pergunta mais importante não seja apenas como impedir que um menino diga algo machista. É o que fazemos depois que ele diz.

Escutar não significa concordar

Uma pesquisa publicada em setembro de 2026 pela Durham University investigou como jovens se relacionam com ambientes digitais, influenciadores e construções de masculinidade. Um dos achados confronta uma imagem bastante difundida: meninos e jovens não aparecem simplesmente como receptores passivos de tudo aquilo que encontram online.

Eles podem perceber contradições, reconhecer riscos, concordar com partes de um discurso e rejeitar outras. Isso não torna conteúdos misóginos ou violentos menos preocupantes. Muda o trabalho que os adultos precisam fazer.

Se tratarmos todo menino que reproduz uma ideia problemática como alguém que já aderiu completamente a uma ideologia, podemos fechar justamente o espaço no qual aquela ideia poderia ser examinada. A pesquisa recomenda ambientes abertos e não julgadores nos quais jovens consigam discutir masculinidade, relacionamentos e questões controversas, inclusive quando expressam posições pouco inclusivas.

Não julgar o menino não significa deixar a ideia sem contestação.

Escutar não é concordar.

Antes de responder, descubra de onde veio a ideia

Quando um menino diz algo que nos incomoda, existe uma tentação compreensível de explicar imediatamente por que ele está errado. Mas, ao fazer isso, podemos perder uma informação importante: de onde veio aquilo?

“Por que você acha isso?” “Onde você ouviu?” “Seus amigos pensam assim?” “O que nessa explicação faz sentido para você?”

A mesma frase pode ter significados muito diferentes. Pode ser repetição, provocação, tentativa de pertencer a um grupo, expressão de uma experiência de rejeição, uma crença já consolidada ou mesmo uma pergunta que saiu em forma de afirmação.

Sem descobrir isso, corremos o risco de responder à frase e não conversar com o menino.

Isso é particularmente importante diante daquilo que costuma ser chamado de manosfera: um ecossistema bastante diverso de influenciadores, comunidades e conteúdos sobre homens, relacionamentos, masculinidade, sexo, corpo, dinheiro e sucesso.

Esses espaços não oferecem apenas opiniões. Também oferecem explicações. Explicam por que um menino se sente sozinho, por que uma menina não quis ficar com ele, por que outros parecem mais fortes ou bem-sucedidos, por que ele está com raiva. Algumas dessas explicações transformam frustração em ressentimento contra mulheres, feminismo ou outros grupos.

Mas elas chegam depois de uma pergunta real.

Por isso, simplesmente desmontar o argumento pode não ser suficiente. Precisamos conseguir chegar também à pergunta que existe embaixo dele.

Há momentos em que o adulto precisa colocar limite

Criar espaço para conversa não significa transformar qualquer afirmação em opinião legítima. Humilhação, violência, ameaça e desumanização exigem limite. Um menino precisa saber que existem comportamentos que não serão aceitos.

A diferença está em não transformar o limite no encerramento da conversa.

É possível dizer: “Isso que você falou sobre meninas não é aceitável aqui.” E continuar: “Quero entender por que você pensa assim.”

Responsabilização e curiosidade não são opostas. Podem fazer parte da mesma conversa.

Essa talvez seja uma das tarefas mais difíceis para quem trabalha com meninos: não confundir acolher uma pessoa com validar tudo aquilo que ela diz. Um espaço seguro não precisa ser um espaço sem conflito. Pode ser justamente um lugar onde ideias são questionadas sem que o menino precise ser humilhado para que isso aconteça.

O objetivo não é vencer a discussão

Se um adulto entra na conversa para provar que sabe mais, provavelmente conseguirá. Adultos têm mais repertório, linguagem e experiência. Mas ganhar uma discussão não significa transformar uma crença.

Talvez seja mais importante ajudar o menino a desenvolver ferramentas para examinar aquilo que recebe. Quem está dizendo isso? Que interesse essa pessoa tem? Que imagem de homem ela oferece? O que promete para quem seguir esse caminho? Quem é responsabilizado pelos problemas dos homens? Como as mulheres aparecem nessa explicação? Existe alguma experiência daquele menino que contradiz o que está sendo dito?

Isso é alfabetização digital, mas também é alfabetização de gênero.

O objetivo não deveria ser produzir meninos capazes de repetir aquilo que os adultos consideram correto. Deveria ser ajudá-los a desenvolver recursos para reconhecer manipulação, desigualdade, violência e discursos simplificadores — inclusive quando esses discursos oferecem respostas confortáveis para dores reais.

Precisamos continuar na conversa

Meninos estão tentando descobrir quem são. Fazem isso na família, na escola, entre amigos, nos esportes e, cada vez mais, diante de telas.

Não vamos controlar todas as referências que encontrarão. Também não conseguiremos impedir que encontrem discursos que gostaríamos que não encontrassem.

Podemos construir relações nas quais eles consigam trazer essas ideias para perto de adultos sem saber antecipadamente que serão humilhados ou descartados. Isso exige uma habilidade difícil: ouvir algo de que discordamos sem abandonar nossa responsabilidade de adulto; perguntar antes de concluir; colocar limite sem romper vínculo; discordar sem transformar o menino no próprio problema.

Quando um menino diz algo machista, existe uma ideia que precisa ser enfrentada.

Mas ainda existe um menino com quem precisamos continuar conversando.

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