O que nós, homens, temos a ver com o Outubro Rosa?
Minha esposa morreu de câncer de mama há oito anos. Ao reler um texto sobre o Outubro Rosa que escrevi anos atrás e nunca publiquei, percebi que aquela reflexão também escondia uma pergunta sobre homens, cuidado e presença.
Micaela tinha 37 anos quando descobriu um câncer de mama. Não havia histórico da doença na família. O diagnóstico veio cedo, seguido por uma quimioterapia agressiva e, seis meses depois, por uma dupla mastectomia. Fizemos o que nos disseram que precisava ser feito. Um ano depois, ela morreu.
Durante muito tempo, essa história tornou outubro um mês difícil para mim. Não porque eu não reconhecesse a importância do Outubro Rosa ou das campanhas de conscientização sobre o câncer de mama. Reconheço. Informação, acesso a exames, diagnóstico e tratamento salvam vidas. O incômodo vinha de outro lugar: da distância entre algumas das narrativas que construímos sobre o câncer e aquilo que eu tinha visto acontecer dentro da minha própria casa.
Alguns anos depois da morte da Micaela, escrevi um texto sobre isso. Nunca publiquei. Na época, havia raiva demais misturada ao que eu queria dizer. Eu olhava para as fitas cor-de-rosa, para as histórias de superação e para a ideia de que descobrir cedo poderia salvar vidas e pensava nela. Micaela tinha descoberto cedo. Tinha feito o tratamento. E tinha morrido.
Guardei o texto.
Voltei a ele agora, anos depois, e foi estranho encontrar ali algumas convicções que já não tenho da mesma maneira e, ao mesmo tempo, perguntas que continuam comigo. Uma delas é a ideia de que basta fazer tudo certo para que o desfecho também seja o certo.
Descobrir cedo importa. Ter informação importa. Fazer os exames indicados importa. Ter acesso ao tratamento importa — e muito. Mas nada disso transforma o câncer numa equação moral em que comportamentos corretos necessariamente produzem finais felizes.
Existe uma violência sutil quando aproximamos demais saúde e mérito. A pessoa doente pode acabar carregando, além da própria doença, a suspeita de que poderia ter feito alguma coisa diferente. Quando contamos apenas histórias de quem “venceu”, corremos o risco de deixar implícita uma pergunta terrível sobre aqueles que morreram: o que lhes faltou para vencer?
Talvez por isso eu tenha cada vez mais dificuldade com a metáfora da guerra aplicada ao câncer. Há quem encontre força nela, e isso precisa ser respeitado. Mas ela não dá conta de todas as experiências.
Micaela não perdeu uma batalha. Ela morreu de câncer.
Para mim, dizer dessa maneira retira de quem adoeceu a responsabilidade pelo desfecho. Permite reconhecer algo mais simples e mais difícil: há doenças que a medicina ainda não consegue curar. Permite também falar do que acontece quando a cura deixa de ser uma possibilidade.
Essa inquietação já estava naquele texto que guardei. Eu falava sobre câncer metastático, pesquisa, cuidados paliativos e sobre a necessidade de tornar a conversa sobre câncer mais inclusiva. Mas, relendo o texto hoje, percebi que havia outra história acontecendo diante de mim e que eu ainda não conseguia nomear.
Era uma história sobre cuidado.
A doença não aconteceu apenas no corpo da Micaela. Ela entrou na nossa casa. Entrou na agenda, nas refeições, no trabalho, nas conversas, na relação com as crianças, nas noites mal dormidas, nos deslocamentos para consultas e exames. Entrou nas pequenas decisões cotidianas e nas decisões enormes que ninguém gostaria de precisar tomar.
O câncer era dela. A vida em torno do câncer era nossa.
Hoje, parte importante do meu trabalho acontece justamente em torno das masculinidades, da paternidade e do cuidado. Converso com homens sobre aquilo que aprendemos — e sobre aquilo que não aprendemos — a respeito de estar disponíveis para outras pessoas, pedir ajuda, reconhecer fragilidades, sustentar vínculos e assumir responsabilidades de cuidado.
Quando olho para aqueles meses a partir desse lugar, encontro uma dimensão da experiência para a qual eu ainda não tinha linguagem. Eu tinha aprendido muitas coisas sobre ser homem. Resolver problemas era uma delas. Proteger as pessoas que eu amava também.
A doença me colocou diante de uma experiência para a qual essas duas ideias eram insuficientes: havia um problema que eu não conseguiria resolver e alguém que eu amava que eu não conseguiria proteger.
Era preciso aprender outra coisa: cuidar.
E cuidar não significava salvar. Significava acompanhar consultas, prestar atenção aos medicamentos, organizar a casa, cuidar das crianças, conversar, ouvir, estar atento ao que precisava ser feito e, algumas vezes, simplesmente permanecer. Significava também conviver com a impotência. Há uma diferença enorme entre desistir de alguém e reconhecer que você não pode impedir aquilo que está acontecendo com ela.
Não conto isso para transformar aquela experiência numa história sobre um marido exemplar. Seria injusto com a Micaela e também não corresponderia ao que sei hoje sobre cuidado. Certamente fiz coisas bem, fiz outras mal e houve necessidades que provavelmente nem fui capaz de perceber. Muito do que consigo compreender sobre aquele período só se tornou visível anos depois.
É justamente aí que minha experiência pessoal encontra a conversa que faço hoje com outros homens.
Ainda tratamos o cuidado como se as mulheres chegassem ao mundo sabendo cuidar. São elas que, com enorme frequência, acompanham filhos, pais e companheiros, lembram consultas, percebem mudanças, organizam rotinas e sustentam vínculos. Aos homens, muitas vezes, é permitido ocupar uma posição auxiliar: ajudar quando solicitado, participar quando necessário, assumir algumas tarefas e, não raramente, ser reconhecido de maneira desproporcional por fazê-las.
Uma doença grave expõe a insuficiência desse arranjo. Quando uma mulher adoece, o cuidado que ela oferecia aos outros não desaparece. A casa continua existindo, os filhos continuam precisando de atenção e há comida, escola, roupa, compromissos, trabalho, contas e afetos. Ao mesmo tempo, surge um novo conjunto de necessidades relacionadas ao tratamento e à própria experiência de adoecer.
Quem assume esse cuidado?
Essa talvez seja uma pergunta que nós, homens, também deveríamos fazer durante o Outubro Rosa. Não para deslocar das mulheres uma campanha construída em torno da saúde delas. Nem para transformar homens em protagonistas de uma experiência que não é nossa. Mas porque, se queremos falar seriamente sobre câncer de mama, também precisamos olhar para as relações que cercam quem adoece.
E os homens fazem parte dessas relações.
Somos maridos, companheiros, pais, filhos, irmãos, amigos. Podemos estar na sala de espera, em casa, no hospital, diante das crianças, nas decisões sobre trabalho e dinheiro. Podemos assumir responsabilidades ou esperar que alguém nos diga o que fazer.
Podemos ser presença ou produzir mais uma ausência que outra pessoa terá de administrar.
No texto que nunca publiquei, há uma frase que me chamou particularmente a atenção quando o reli: “É abraçar o cuidador também.”
Ainda acredito nisso. Quem cuida também precisa de cuidado, apoio e espaço para reconhecer seus limites. Mas hoje eu acrescentaria uma pergunta anterior: quem está cuidando? E por que essa resposta continua tão frequentemente associada às mulheres?
Outubro pode continuar sendo rosa. Pode continuar lembrando mulheres da importância de olhar para a própria saúde, ampliando informação e reivindicando acesso a diagnóstico e tratamento. Mas talvez exista espaço, ao lado disso, para conversas menos confortáveis: sobre doença sem heroísmo, sobre pessoas que não se curam, sobre cuidados paliativos e finitude, sobre o que acontece com uma família quando a doença entra em casa e sobre a rede de cuidado que se forma — ou não — em torno de quem adoece.
Para nós, homens, essa conversa talvez comece com a disposição de estar, de assumir responsabilidade, de aprender aquilo que não aprendemos e de entender que cuidar não é ajudar uma mulher a cumprir uma responsabilidade que continua sendo dela.
Cuidar também é nossa responsabilidade.
Micaela morreu há oito anos. Desde então, nossos filhos cresceram. Eu mudei. O modo como compreendo aquela experiência também mudou. Eu teria preferido mil vezes não precisar aprender nada disso dessa maneira.
Mas outubro volta. As fitas cor-de-rosa aparecem outra vez. E hoje, quando olho para elas, já não penso apenas no que falta à campanha.
Penso no que aquela experiência continua me perguntando:
quando alguém que amamos adoece, que lugar ocupamos na vida dela?