artigo · cuidado e masculinidades

Quando os homens se tornam cuidadores

Quando falamos de homens e cuidado, quase sempre chegamos à paternidade. Falamos sobre trocar fraldas, levar os filhos à escola, preparar comida, acompanhar consultas e dividir o trabalho doméstico. Há boas razões para isso. Durante muito tempo, cuidar dos filhos foi tratado como responsabilidade feminina, e a participação dos pais continua muito desigual.

Mas os filhos são apenas uma das maneiras pelas quais o cuidado entra na vida de um homem.

Em algum momento, um homem pode precisar cuidar do pai que envelheceu, da mãe que perdeu autonomia, da companheira que adoeceu, de um irmão ou de alguém que enfrenta câncer, demência ou uma doença crônica. Nessas situações, aparece uma pergunta que fazemos pouco: o que acontece com um homem quando ele se torna cuidador?

O cuidado também precisa caber dentro da ideia de homem

Uma revisão sistemática publicada em 2026 na Ageing Research Reviews reuniu 30 estudos qualitativos sobre homens que cuidam informalmente de pessoas com demência. Os pesquisadores encontraram algo mais complexo do que a ideia de que homens simplesmente não sabem cuidar. Muitos precisavam reconstruir a própria identidade para incorporar o papel de cuidador.

Para fazer isso, alguns recorriam a repertórios que já faziam parte daquilo que haviam aprendido sobre ser homem: organizar, proteger, resolver problemas, assumir responsabilidades. O cuidado podia começar por uma rotina de medicamentos para organizar, uma consulta para acompanhar, uma casa para adaptar ou uma decisão que precisava ser tomada.

Isso não significa que esses homens não estivessem emocionalmente envolvidos. Talvez signifique apenas que aquela era uma linguagem disponível para começar a cuidar.

Outras pesquisas com homens que cuidam de familiares também encontram movimentos semelhantes. Assumir o cuidado pode produzir tensão com expectativas tradicionais de masculinidade, mas pode também ampliar aquilo que o próprio homem entende como possível dentro da identidade masculina. Ele não abandona necessariamente tudo o que aprendeu sobre ser homem para se tornar cuidador. Às vezes começa usando exatamente esse repertório e, no processo, transforma seu significado.

Proteger pode deixar de significar apenas garantir dinheiro e passar a incluir preparar uma refeição. Força pode deixar de significar não precisar de ninguém e passar a incluir permanecer ao lado de alguém que está perdendo autonomia. Responsabilidade pode deixar de estar associada apenas ao trabalho e incluir banho, medicamentos, consultas, alimentação e companhia.

O cuidado também reorganiza a masculinidade.

Fazer também pode ser uma forma de cuidar

Existe um risco quando discutimos masculinidades e cuidado: considerar que a forma correta de cuidar é aquela que se parece com o repertório emocional que gostaríamos que os homens tivessem.

Se um homem responde ao adoecimento organizando tarefas, procurando informações e tentando resolver problemas, podemos interpretar imediatamente aquilo como dificuldade de entrar em contato com as emoções. Às vezes será. Mas nem sempre.

A revisão sobre homens cuidadores de pessoas com demência encontrou justamente estratégias orientadas a tarefas e resolução de problemas entre as maneiras utilizadas para lidar com o cuidado. Isso sugere que o problema talvez não seja começar pelo fazer. O problema aparece quando o fazer se torna a única possibilidade.

Quando organizar medicamentos é possível, mas dizer que está com medo não é. Quando resolver problemas é permitido, mas pedir ajuda não. Quando cuidar do outro cabe na identidade masculina, mas admitir que aquele cuidado está exaurindo o cuidador continua parecendo fraqueza.

É nesse ponto que uma estratégia útil pode se transformar em prisão.

Essa distinção também importa para quem oferece apoio. Talvez não seja necessário exigir que um homem comece uma conversa sobre cuidado falando de sentimentos. Podemos começar pelaquilo que ele precisa fazer amanhã, pela consulta que não sabe como organizar, pelo cansaço ou por uma decisão que precisa tomar. O prático e o emocional não precisam ser tratados como mundos separados.

O cuidador também perde

A pesquisa sobre homens cuidadores de pessoas com demência encontrou ainda outra dimensão importante: o cuidado não envolve apenas aquilo que precisa ser feito. Envolve também aquilo que está sendo perdido.

Mudanças na relação, perda de intimidade e isolamento aparecem nas experiências relatadas pelos cuidadores. Um homem pode continuar casado e, ao mesmo tempo, começar a perder partes da relação que conhecia. Pode continuar sendo filho e perceber que a relação com o pai ou a mãe está se invertendo. Pode amar profundamente alguém e sentir cansaço, irritação, medo ou vontade de escapar.

Nenhuma dessas experiências cancela o cuidado. Elas fazem parte dele.

Talvez seja justamente aí que a linguagem orientada apenas para tarefas deixe de ser suficiente, porque existem situações que não podem ser resolvidas. Há doenças que avançam apesar de tudo o que fazemos, autonomias que não retornam, relações que mudam e perdas que começam antes mesmo da morte.

Cuidar também pode significar conviver com aquilo que não conseguimos consertar.

Quem cuida dos homens que cuidam?

Os estudos também apontam dificuldades na procura e na aceitação de ajuda. Pesquisas com homens cuidadores encontram questões relacionadas à preservação de determinadas ideias de masculinidade, à necessidade de manter controle sobre o cuidado e, em alguns casos, à relutância em pedir ou aceitar suporte.

Ao mesmo tempo, a literatura oferece uma pista prática: muitos homens valorizam apoio que dialogue com a maneira como já estão enfrentando a situação, incluindo informação, orientação e ajuda concreta.

Isso deveria nos fazer pensar sobre como oferecemos cuidado aos cuidadores. Talvez dizer apenas “você precisa falar sobre o que está sentindo” não seja suficiente. Podemos começar perguntando: do que você precisa para conseguir cuidar amanhã?

A partir dessa pergunta podem aparecer o medicamento, o banho, o dinheiro, a consulta, mas também o medo, o cansaço e a solidão. Não precisamos escolher entre o prático e o emocional. A vida raramente faz essa separação.

Homens sempre cuidaram

Existe ainda um problema de visibilidade. Quando associamos naturalmente mulheres ao cuidado e homens à provisão, podemos deixar de enxergar os homens que já estão cuidando.

Eles existem. São maridos, filhos, irmãos, pais e amigos. Alguns aprenderam cedo. Outros chegaram ao cuidado porque a vida não lhes deu alternativa. Alguns se sentem preparados. Muitos aprendem enquanto fazem.

Reconhecer isso não significa ignorar a enorme desigualdade de gênero que continua colocando sobre as mulheres uma parcela desproporcional do trabalho de cuidado. Reconhecer homens cuidadores não apaga essa desigualdade. Pode fazer justamente o contrário: ajuda a retirar o cuidado do lugar de atributo feminino e colocá-lo onde deveria estar, entre as capacidades humanas que todos precisamos aprender.

Talvez uma das transformações importantes das masculinidades aconteça justamente aí. Não apenas quando convencemos homens de que deveriam cuidar mais, mas quando tornamos possível que um homem consiga olhar para aquilo que já faz — preparar comida, organizar medicamentos, acompanhar uma consulta, dar banho, permanecer ao lado de alguém — e reconhecer aquilo como cuidado.

E, a partir daí, reconhecer também que quem cuida precisa ser cuidado.

publicidade

continuar lendo