texto · do livro

a saudade passa?

No aniversário da Mi, alguns meses depois da morte, deixei as crianças na escola e, no caminho de volta, desviei.

Parei numa floricultura e escolhi uma rosa vermelha. Era o tipo de flor que eu costumava levar para ela em dias quaisquer.

Segui para o cemitério.

Era a primeira vez que voltava.

Subi as escadas devagar. O corredor de pedras portuguesas parecia não terminar. Em algum momento, me perdi e precisei pedir ajuda a um funcionário.

Então vi o nome dela.

Meu coração acelerou. A respiração ficou curta.

Parei com a rosa na mão.

No enterro, alguém tinha dito que ela não estava mais ali. Que era só o corpo. Naquele dia, eu não soube o que fazer com essa frase.

Meses depois, eu tinha voltado até ali para falar com ela.

Contei da escola das crianças, do cansaço, das pequenas vitórias, do peso de estar sozinho. Disse que mais tarde compraríamos um bolinho e cantaríamos parabéns.

Encostei a rosa no bronze com o nome dela.

Depois fui buscar as crianças.

Talvez essa sequência diga alguma coisa importante sobre a saudade.

Ela não parou o dia.

Mas entrou nele.

Durante muito tempo ouvi perguntas que pareciam procurar uma medida para o luto: já passou? Está melhor? O tempo ajuda?

Eu entendia a intenção. Também queria saber. Queria descobrir se existia um momento em que eu acordaria e perceberia que aquilo finalmente tinha ficado para trás.

Não aconteceu assim.

A saudade mudou.

No começo, ela era quase física. Entrava no corpo antes que eu pudesse nomeá-la. Havia lugares que eu evitava, datas que começavam dias antes, objetos que pareciam ter peso próprio.

Depois ela começou a se misturar às tarefas. Aparecia enquanto eu fazia café, na porta da escola, quando precisava escolher uma roupa para as crianças, quando o Francisco dizia alguma coisa que ela teria achado engraçada, quando a Maria fazia um gesto parecido com o dela.

Com o tempo, outras coisas também voltaram a caber: riso, trabalho, amigos, projetos, desejo. Até o cansaço comum, desses que não têm relação nenhuma com a morte.

A vida foi ocupando espaço outra vez.

Isso não significou que a saudade estivesse diminuindo numa linha reta. Ainda existem dias em que ela chega antes de qualquer outra coisa. E existem dias em que passa horas quieta num canto.

Às vezes aparece por uma razão óbvia: uma data, uma fotografia, uma música. Às vezes surge porque encontrei pão francês quente. Ou porque o vento mexeu na cortina. Ou porque vi uma sobremesa no cardápio.

Talvez a pergunta “a saudade passa?” carregue uma ideia difícil para quem perdeu alguém: a de que o objetivo seria deixar de sentir.

Eu não quero deixar de sentir saudade da Mi.

Queria, evidentemente, que ela estivesse aqui e que eu não precisasse sentir saudade nenhuma. Mas, já que isso não é possível, a saudade é também uma marca do vínculo que existiu.

O que precisei aprender não foi a fazê-la desaparecer.

Foi a viver sem deixar que ela ocupasse todos os cômodos.

Há diferença.

A saudade pode sentar à mesa sem que a vida inteira precise parar de comer. Pode aparecer no banco do passageiro e, ainda assim, a gente continuar dirigindo. Pode entrar numa conversa e depois dar lugar a outra coisa.

Durante muito tempo, tive medo de rir e parecer que estava esquecendo. Depois entendi que a memória da Mi não dependia da minha tristeza permanente.

As crianças me ensinaram muito sobre isso sem saber. Sentiam saudade e, minutos depois, estavam brincando. Choravam e depois pediam comida. Falavam da mãe e voltavam para o desenho.

A vida não parecia desrespeitar a ausência quando continuava.

Talvez fosse apenas vida.

Hoje, quando a saudade chega, nem sempre tento expulsá-la. Também não faço questão de transformá-la em alguma coisa bonita.

Às vezes ela dói.

Às vezes aquece.

Às vezes apenas está ali.

E então alguém me chama da sala.

Eu levanto.

E vou.

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