texto · do livro

como alguém continua presente depois que morre?

Outro dia, no supermercado, parei diante de uma prateleira de massas.

Olhei duas embalagens e, sem pensar, falei em voz alta:

— Qual você prefere, essa ou aquela?

Algumas pessoas olharam. Só então percebi que estava falando sozinho. Sorri sem graça e peguei uma delas.

Isso ainda acontece.

Não porque eu ache que a Mi está escondida no corredor do supermercado esperando responder. Não é uma experiência sobrenatural. Não ouço uma voz que vem de fora.

É mais simples e mais estranho do que isso.

Depois de tantos anos dividindo a vida com alguém, certas conversas não sabem que deveriam terminar.

Elas continuam.

Quando o Francisco chega do jiu-jitsu contando alguma coisa nova, penso em dizer para ela que ele está adorando. Quando a Maria escreve, desenha ou sobe num palco, tenho vontade de contar. Quando compro pão francês, às vezes escolho daquele jeito que ela gostava.

Em casa, a manteigueira de porcelana branca continua na mesa. Tem uma lasquinha. A Mi chamava de charme. Eu chamava de teimosia.

Quando saímos para comer, eu, Maria e Francisco ainda procuramos tiramisù no cardápio. Virou hábito. Se tem, pedimos. Se não tem, sentimos uma pequena frustração que talvez ninguém de fora entenda.

Durante muito tempo, achei que presença e ausência fossem opostos. Ou alguém está ou não está. A morte deveria encerrar essa equação de maneira definitiva.

Só que a vida cotidiana é menos organizada.

A cadeira está vazia, mas eu ainda lembro que não podia esquecer o guardanapo. A pessoa não está à mesa, mas uma receita continua sendo preparada do jeito que ela fazia. O filho cresce e, num gesto que nunca aprendeu conscientemente, repete alguma coisa dela. Uma frase aparece na cabeça no meio do dia. Um objeto atravessa anos dentro de uma casa.

Talvez o que continue não seja a pessoa da forma como a gente gostaria.

A Mi não viu a Maria crescer até aqui. Não viu o Francisco aprender a escrever. Não esteve comigo quando levei nosso filho para conhecer o mar, uma coisa que ela queria tanto fazer.

Naquele dia, ele se assustou com a primeira onda e riu na segunda. Eu fiquei olhando os dois, ele e a Maria, e pensei nela.

Não foi a mesma coisa que tê-la ali.

É importante dizer isso.

Memória não substitui presença. Um objeto não substitui um corpo. Uma história não devolve alguém.

Há um risco de transformar o que fica numa espécie de compensação bonita para aquilo que foi perdido.

Não é.

A falta continua sendo falta.

Mas a falta não consegue apagar tudo.

A morte interrompe uma vida. Não necessariamente interrompe todos os vínculos que aquela vida criou. Alguns continuam em hábitos. Outros em frases. Outros no jeito de criar os filhos. Outros em coisas pequenas que, vistas de fora, parecem quase insignificantes.

Uma manteigueira. Um pão quente. Uma sobremesa. Uma rosa vermelha. Um lugar à mesa que às vezes deixo vago sem perceber.

Durante anos, achei que guardar essas coisas pudesse significar não aceitar a morte.

Hoje vejo de outro jeito.

Continuar falando da Mi não me impede de viver. Talvez faça parte da maneira como vivo.

Eu não conto apenas histórias sobre a doença ou sobre o hospital. Conto que ela gostava de determinado doce. Que implicava com minha barba. Que reparava na luz do entardecer. Que chamava a lasca da manteigueira de charme.

Essas coisas devolvem a ela uma dimensão que a morte às vezes tenta roubar: a de ter sido uma pessoa inteira, e não apenas alguém que morreu.

Às vezes converso com ela enquanto lavo a louça. Não é oração. Também não é pedido.

É comentário de fim de dia.

Não espero resposta.

Sigo contando.

Talvez seja assim que alguém continue presente depois que morre.

Não como monumento. Não como fantasma.

Mas misturado à vida que continua.

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