o que a escrita faz com a dor?
Comecei a escrever uma das primeiras cartas sentado na porta da escola da Maria.
Eu tinha chegado mais cedo. As crianças corriam pelo pátio, as mochilas pareciam maiores que os corpos, alguns pais olhavam para o celular. A Maria me viu de longe e acenou.
Eu estava ali porque precisava encontrar um jeito de falar sobre uma coisa que ainda não conseguia dizer em voz alta.
A Mi estava doente. Os exames já tinham mudado de tom. Havia conversas que começavam a aparecer entre nós e outras que eu adiava porque dizer parecia tornar tudo mais real.
Eu queria pedir que ela escrevesse para a Maria. Queria que deixasse alguma coisa para depois. Mas não conseguia formular aquele pedido sem sentir que estava antecipando uma despedida.
Então escrevi eu primeiro.
Escrevi que estava triste, que estava com medo de não dar conta, que tinha dúvidas sobre o trabalho, sobre a vida, sobre como ser o pai que ela e o Francisco precisavam.
Quando o sinal bateu, a Maria saiu correndo e me abraçou. Por alguns instantes, o medo recuou.
Guardei o texto.
Dias depois, mostrei para a Mi. Não falei tudo. Ela também não. Mas alguma coisa que estava presa entre nós encontrou uma passagem.
Talvez tenha sido ali que comecei a entender o que a escrita podia fazer com a dor.
Durante muito tempo, achei que escrever servia para explicar. Depois, achei que servia para guardar. Mais tarde, depois que a Mi morreu, passei a dizer que escrevia para deixar alguma coisa para os meus filhos: uma memória da mãe deles, uma história da nossa família, um registro para quando crescessem e fizessem perguntas que eu talvez já não soubesse responder.
Era verdade.
Mas não era toda a verdade.
Eu escrevia também para mim. Algumas lembranças pareciam grandes demais quando ficavam apenas dentro do corpo. Existiam cenas que voltavam sem pedir licença, e eu precisava colocar em algum lugar a mão dela na minha, a mamadeira de dinossauro, os fios de cabelo no chão, os potes de comida na geladeira, o som dos aparelhos no hospital, as crianças me chamando da sala.
No papel, nada disso deixava de doer.
Mas ganhava contorno.
Há uma diferença entre diminuir uma dor e conseguir olhá-la. A escrita nunca diminuiu o que aconteceu. Não tornou a morte da Mi aceitável, não organizou o mundo de um jeito que finalmente fizesse sentido, não entregou nenhuma lição que justificasse o que vivemos.
Ela me permitiu ficar diante das coisas por mais tempo. Voltar a uma cena. Reparar no que eu não tinha percebido. Reconhecer que, no mesmo dia em que havia medo, também havia café. Que dentro de um quarto de hospital ainda cabia uma piada. Que no meio de uma casa atravessada pelo câncer uma criança podia achar graça na mãe careca.
Escrever foi me ensinando que a memória não é feita apenas dos grandes acontecimentos. Ela mora também nas miudezas.
No começo, eu queria chegar ao fim. Queria escrever o suficiente para fechar a história, como se houvesse uma quantidade certa de páginas depois da qual eu pudesse colocar um ponto final, guardar tudo numa gaveta e seguir.
Demorei para perceber que esse ponto não existia.
A escrita não encerrou a dor. Talvez tenha feito quase o contrário: abriu espaço para que ela pudesse existir sem ocupar tudo.
Com o tempo, os textos deixaram de ser apenas uma tentativa de sobreviver ao que tinha acontecido. Começaram a ser também uma forma de perceber o que continuava acontecendo: a Maria crescendo, o Francisco fazendo perguntas, a casa mudando, os amigos que ficaram, os que sumiram, minha dificuldade de pedir ajuda, a descoberta de que eu ainda conversava com a Mi enquanto lavava a louça ou escolhia uma massa no supermercado.
Foi assim que uma reunião de textos começou a virar livro.
Não porque a história tivesse terminado.
Porque finalmente entendi que ela não precisava terminar.
Ainda escrevo quando não sei exatamente o que fazer com alguma coisa. Às vezes descubro alguma resposta. Na maior parte das vezes, descubro uma pergunta melhor.
Talvez seja isso que a escrita faça com a dor.
Não cura, não apaga, não explica. Mas oferece um lugar onde a gente pode sentar ao lado dela por algum tempo, olhar de novo para o que aconteceu e, quando for possível, levantar para continuar o dia.
Talvez escrever seja uma forma de transformar o ponto final que eu procurava numa vírgula.
E seguir.