texto · do livro

quem cuida de quem ficou?

Na semana seguinte à primeira quimioterapia da Mi, começaram a aparecer potes de comida na nossa geladeira.

Eles chegavam etiquetados, prontos, silenciosos.

— Para vocês não se preocuparem com cozinhar.

A Mi chamava aquilo de amor em forma de comida. Eu abria a porta da geladeira e via arroz, feijão, alguma mistura, uma sobremesa, e tinha a sensação concreta de que alguém estava segurando um pedaço do peso conosco.

Na época, eu ainda não sabia o quanto me lembraria desses potes depois.

Quando alguém adoece, uma rede de cuidado costuma se formar em torno da pessoa doente. Médico, família, amigos, vizinhos. Há remédios, exames, consultas, horários. Todo mundo entende que aquela pessoa precisa de ajuda.

Quando ela morre, uma parte dessa estrutura desaparece junto.

E ficam as pessoas que ficaram.

No primeiro almoço sem a Mi, tentei fazer tudo. Arroz, feijão, carne, legumes, salada. A mesa ficou cheia. As crianças comeram pouco.

Guardei a comida na geladeira e fui para o quarto chorar.

Naquele dia, a pergunta que me atravessava era simples e assustadora:

como eu vou alimentar meus filhos?

Não era apenas sobre comida. Era banho, escola, roupa, conta, dente mole, febre, mamadeira, reunião de pais. Era a saudade deles e a minha. Eu tinha acabado de perder minha mulher e, ao mesmo tempo, a casa continuava me pedindo coisas.

Havia pessoas por perto. Meu pai e Célia cuidaram de papéis e decisões que eu não conseguia acompanhar. Minha mãe aparecia em casa e fazia como sempre fez: olhava em volta, dobrava roupas, perguntava pouco. Mulheres da família, amigas, mães da escola foram entrando nas frestas da rotina.

Nem sempre eu soube receber.

Durante muito tempo, ser cuidado me constrangia. Eu estava acostumado a ser a pessoa que resolvia. Durante o tratamento, virei função. Organizei horários, exames, remédios, crianças, hospital.

Depois da morte, continuei tentando.

Só que havia coisas demais.

Com o tempo, senti falta de alguns amigos de antes. Muitos se afastaram. Eu também me afastei. É difícil dizer onde começa uma ausência e termina a outra.

Eu não sabia pedir ajuda. Talvez nem soubesse exatamente o que pedir.

Procurava homens que tivessem atravessado algo parecido. Pais solos. Viúvos. Pessoas que soubessem como era sair de um enterro e, poucas horas depois, continuar preparando a vida das crianças.

Por muito tempo, encontrei silêncio.

E, enquanto procurava esses homens, eram principalmente mulheres que apareciam.

Um dia, já cansado de funcionar sozinho, escrevi para alguns amigos. Disse que eu tinha sumido, mas que eles também tinham sumido. Disse que nunca tinha precisado tanto deles.

Eu não queria uma grande intervenção. Queria alguém para tomar café. Dividir uma conversa. Ficar por perto enquanto eu lavava a louça ou colocava roupa na máquina.

Demorei para perceber que cuidado raramente se parece com aquilo que imaginamos quando usamos a palavra “cuidado”. Às vezes é comida. Às vezes é buscar uma criança na escola. Às vezes é assumir uma ligação que você não consegue fazer. Às vezes é dobrar roupas sem transformar aquilo numa cerimônia.

Às vezes é simplesmente sentar ao lado.

Anos depois, encontrei também grupos de homens. Sentei em rodas, ouvi histórias, contei a minha. Descobri o alívio estranho de estar entre pessoas que não precisavam que eu parecesse inteiro.

Ainda hoje estou aprendendo a pedir. Ainda tenho o impulso de resolver primeiro e falar depois. Mas a vida foi me mostrando que nenhuma travessia humana acontece sozinha.

A pergunta “quem cuida de quem ficou?” não tem uma resposta única.

Cuida a família que consegue chegar. Cuida o amigo que reaparece. Cuida a mãe da escola que oferece ajuda. Cuida quem traz comida. Cuida quem escuta. Cuida quem fica em silêncio quando não há o que dizer.

E, aos poucos, quem ficou também aprende uma coisa difícil:

aceitar que precisa ser cuidado.

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por você eu faria isso mil vezes

uma história sobre amor, cuidado, doença, luto, paternidade e a vida que continua.

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