Escuta e responsabilização no trabalho com homens
Trabalho com homens para construir espaços em que seja possível olhar para o que aprendemos sobre cuidado, poder, afeto e violência. A responsabilização faz parte desse trabalho. E uma dificuldade permanece: reconhecer o problema numa fala sem acreditar que isso já me permite conhecer a pessoa que a disse.
Uma publicação de Thaís Bernardes me fez voltar a essa questão. Sua provocação — “E se os idiotas formos nós?” — ficou comigo pelo que revela sobre a certeza de compreender o outro. Levo essa pergunta para o campo em que atuo, sem pretender resumir a análise original.
Conhecer uma estrutura não significa conhecer cada pessoa
O conhecimento sobre masculinidades ajuda a reconhecer comportamentos e expectativas que se repetem: a obrigação de demonstrar força, a desvalorização do cuidado, a associação entre autoridade e controle. Esse conhecimento orienta o trabalho. Mas pode se tornar um obstáculo quando transforma uma pessoa num exemplo que acreditamos já ter entendido.
Um homem pode sofrer com o silêncio emocional e continuar ensinando um menino a não chorar. Pode amar sua família e deixar o cuidado cotidiano a cargo de outra pessoa. Reconhecer a contradição permite formular o problema. Para trabalhar com ela, precisamos compreender como aparece naquela vida e quais consequências produz.
É nesse ponto que a pergunta “como ele ainda pensa assim?” pode nos limitar. Às vezes, ela expressa indignação diante de uma violência. Outras vezes, encerra a investigação antes de ela começar.
Também encontro esse impulso em mim. Estar na posição de facilitador não elimina a pressa de corrigir nem a satisfação de ter uma resposta. Existe alguma comodidade em acreditar que o problema está inteiro do outro lado: quando classifico rapidamente quem fala, não preciso examinar o que minha própria linguagem produz nem aquilo que deixo de ouvir.
O que uma ideia oferece — e o que ajuda a preservar
Certas expectativas sobre ser homem não funcionam apenas como regras. Elas também podem oferecer pertencimento, reconhecimento, segurança e uma explicação para o próprio lugar no mundo. Questioná-las pode mexer com vínculos importantes. Um homem que começa a falar de suas dificuldades pode temer ser ridicularizado justamente por quem lhe oferece companhia. Outro pode temer perder autoridade, reconhecimento ou vantagens que aprendeu a considerar naturais.
Isso não explica todas as resistências. Há também interesses, vantagens e relações de poder que alguém pode querer preservar. Por isso, compreender o sofrimento de um homem não basta para compreender seus comportamentos, muito menos para justificar o dano que produz.
Na conversa, interessa investigar o que aquela ideia permite, o que ela custa e quem paga esse custo. Uma crença pode oferecer pertencimento ao mesmo tempo que legitima o controle sobre outra pessoa. O trabalho precisa alcançar as duas dimensões.
Como sustentar limites na conversa
Escuta não significa deixar qualquer fala circular sem intervenção. Quando uma afirmação reforça violência ou humilha alguém, cabe interromper e nomear o problema. A segurança de quem participa também faz parte da responsabilidade de facilitar.
A intervenção pode abrir uma investigação concreta. Diante de uma afirmação sobre o que homens ou mulheres “devem” fazer, por exemplo, podemos perguntar como essa expectativa aparece em casa, quem assume as tarefas e o que acontece quando alguém tenta agir de outra maneira.
Esse é um exemplo de condução possível, não o relato de um encontro específico. Seu propósito é aproximar uma opinião de comportamentos e consequências que possam ser examinados.
A história de quem fala pode ajudar a compreender como ele aprendeu a agir. Mas a conversa precisa voltar ao presente: o que ele faz, quem é afetado e o que está disposto a rever. A compreensão perde sua função quando passa a ocupar o lugar dessa responsabilidade.
A escuta também precisa admitir seus limites. Uma pessoa pode se sentir compreendida e continuar defendendo o mesmo comportamento. Pode usar sua própria dor para desviar a atenção do dano que causou. Nesses casos, é necessário sustentar o limite, mesmo que isso gere desconforto ou interrompa a conversa.
Descer do palanque e puxar uma cadeira
Existe um risco em falar de escuta como se fosse uma qualidade que alguns já possuem e outros precisam adquirir. Isso apenas desloca a posição de superioridade: passamos a julgar quem julga. O trabalho com homens não deveria significar ocupar o lugar do homem que sabe diante do homem que não sabe.
Por isso, procuro tratar a escuta como uma prática que precisa ser retomada. A resposta que preparo enquanto alguém fala, a impaciência diante de uma resistência e a necessidade de conduzir a conversa para onde eu esperava são parte do que também precisa ser observado. Não quero falar de um palanque de perfeição moral. Prefiro puxar uma cadeira — sem abandonar limites, sem relativizar violência e sem fingir que todas as posições produzem as mesmas consequências.
Não somos igualmente responsáveis em todas as situações. O papel de facilitador envolve deveres específicos, e reconhecer minhas dificuldades não dissolve essa diferença. Ao contrário: exige que eu cuide da maneira como intervenho.
O trabalho com homens pede que olhemos para o comportamento que precisa mudar e para a pessoa que terá de assumir essa mudança. Conhecer o problema orienta a intervenção. Escutar ajuda a descobrir onde ela pode começar. Sustentar limites permite que a conversa continue ligada às consequências do que fazemos.
A provocação de origem é de Thaís Bernardes (@thaiisbernardess). Leia a publicação original: https://www.instagram.com/p/DeGFCgeERNv/?img_index=1