Grupos de homens funcionam? O que as pesquisas realmente mostram
Participo de grupos de homens há anos e hoje também facilito alguns deles. Já vi conversas importantes acontecerem, homens dizerem coisas que nunca haviam dito, vínculos nascerem e alguém encontrar no relato de outro uma maneira diferente de compreender a própria história.
Mas experiência pessoal não é evidência suficiente para afirmar que grupos de homens funcionam.
Para responder com algum rigor, precisamos começar com outra pergunta: funcionam para quê?
Nem todos os grupos de homens são a mesma coisa
A literatura reúne experiências muito diferentes. Existem grupos terapêuticos, programas de prevenção à violência, intervenções sobre paternidade, grupos de saúde, programas transformativos de gênero, espaços comunitários e grupos de apoio. Alguns duram uma tarde; outros, meses. Alguns têm facilitadores profissionais; outros são organizados pelos próprios participantes.
Colocar tudo isso dentro da mesma categoria e perguntar se “funciona” produz uma resposta pouco útil.
Também precisamos distinguir intervenções dirigidas a homens de intervenções que procuram transformar normas de gênero. Um programa pode trabalhar exclusivamente com homens sem questionar relações de poder, violência ou desigualdade entre homens e mulheres.
Essa diferença importa porque os resultados que esperamos são diferentes.
O que as pesquisas conseguem mostrar
Revisões sobre intervenções de promoção da saúde mental masculina encontraram diferentes estratégias promissoras, embora os estudos variem bastante em desenho e qualidade.
Uma revisão sistemática voltada à procura masculina por ajuda psicológica identificou componentes recorrentes em intervenções que conseguiram melhorar atitudes, intenções ou comportamentos relacionados à busca de ajuda. Entre eles estavam educação sobre saúde mental, ajuda para reconhecer sintomas, resolução ativa de problemas, planejamento de ações, orientação clara sobre onde procurar apoio e utilização de modelos masculinos.
Isso já oferece uma pista importante: talvez não seja simplesmente colocar homens juntos que produza mudança. Importa o que acontece quando eles estão juntos, qual é o objetivo da intervenção e como o espaço é construído.
Pesquisas sobre Men's Sheds oferecem outro exemplo. Esses espaços comunitários costumam reunir homens em torno de atividades práticas, como marcenaria, jardinagem e reparos, e vêm sendo estudados especialmente em relação a homens mais velhos.
Uma revisão recente associa a participação nesses espaços a conexão social, redução do isolamento e melhora do bem-estar. Entre os mecanismos propostos estão atividade significativa, conexão social e a relação entre o ambiente e determinadas normas de masculinidade.
Um estudo quantitativo discutido nessa literatura encontrou uma sequência particularmente interessante: maior segurança psicológica estava associada a maior participação; maior participação, a redes sociais maiores e mais sentido de vida; e esses fatores estavam associados a maior bem-estar e menor solidão.
Isso ajuda a explicar por que pertencimento não deveria ser tratado como resultado secundário. Para homens com redes sociais frágeis, construir vínculos pode ser parte central da intervenção.
A evidência também tem limites
É importante não transformar resultados promissores em uma afirmação maior do que os estudos permitem.
Boa parte da literatura sobre grupos e espaços masculinos ainda é qualitativa ou transversal. As medidas utilizadas variam, os desenhos são muito diferentes e determinados grupos de homens estão muito mais representados do que outros.
Também existe um problema de seleção: homens que procuram voluntariamente um grupo podem ser diferentes daqueles que não procuram. Quando encontramos benefícios entre participantes, nem sempre conseguimos determinar quanto deles foi produzido pelo grupo e quanto está relacionado às características das pessoas que decidiram participar.
Por isso, não temos base para afirmar que qualquer grupo de homens produzirá redução de solidão, melhora de saúde mental ou transformação das relações de gênero.
A pergunta precisa continuar sendo específica: qual intervenção, com quais homens, durante quanto tempo e buscando qual resultado?
Acolhimento não elimina responsabilização
Existe ainda um desafio que medidas de bem-estar, sozinhas, não conseguem responder.
Podemos ajudar um homem a sofrer menos e ainda assim não alterar nada na forma como ele exerce poder sobre mulheres. Podemos aumentar o vínculo entre homens e construir um espaço hostil para homens gays. Podemos ensinar um pai a participar mais dos cuidados com o filho e manter intacta a expectativa de que sua companheira continue responsável por organizar todo esse cuidado.
Saúde masculina e transformação das masculinidades podem se encontrar, mas não são sinônimos.
Essa diferença aparece de maneira muito concreta na facilitação. Se um homem conta que está sofrendo depois do fim de uma relação, seu sofrimento merece escuta. Mas, se no relato aparecem controle, perseguição ou violência contra a ex-companheira, acolher aquele sofrimento não pode apagar sua responsabilidade.
Um grupo precisa conseguir sustentar as duas coisas: reconhecer o sofrimento e examinar o comportamento.
Quando isso acontece sem humilhar o participante nem normalizar aquilo que ele fez, aparece uma possibilidade importante de reflexão.
Como saber se alguma coisa mudou?
Se queremos descobrir se grupos funcionam, precisamos decidir antes o que esperamos que mude.
Estamos procurando redução de depressão? Menor solidão? Maior procura por ajuda? Menos violência? Mais participação no cuidado dos filhos? Maior capacidade de reconhecer emoções? Mudança na divisão do trabalho doméstico? Ampliação da rede de apoio?
Cada uma dessas perguntas exige formas diferentes de avaliação.
Esse é um problema importante para quem desenha projetos com homens. É relativamente fácil terminar uma atividade perguntando se os participantes gostaram, se recomendariam a experiência ou se aprenderam alguma coisa.
É muito mais difícil descobrir se alguma coisa mudou três ou seis meses depois.
Um homem pode sair de uma palestra concordando que pais deveriam cuidar mais e continuar fazendo exatamente a mesma quantidade de trabalho de cuidado em casa. Pode sair de um grupo dizendo que aprendeu sobre vulnerabilidade e continuar sem pedir ajuda quando precisa.
Conhecimento, intenção e comportamento não são a mesma coisa.
Então, grupos de homens funcionam?
A resposta mais rigorosa que consigo dar hoje é que alguns grupos e intervenções produzem resultados promissores para determinados objetivos, públicos e contextos.
Há evidências interessantes em conexão social, solidão, bem-estar, saúde mental e procura por ajuda. Existem também intervenções transformativas de gênero com resultados relevantes em áreas específicas.
Mas a literatura ainda tem lacunas importantes. Precisamos de mais estudos longitudinais, maior diversidade racial, social, cultural e sexual, melhores medidas, comparação entre formatos e mais clareza sobre os mecanismos que efetivamente produzem mudança.
Isso não diminui o valor dos grupos. Torna a pergunta mais interessante.
Talvez não devêssemos perguntar apenas se grupos de homens funcionam.
Deveríamos perguntar:
o que precisa acontecer dentro de um grupo para que alguma coisa possa mudar fora dele?
É essa pergunta que deveria orientar tanto a pesquisa quanto a facilitação.