artigo · grupos de homens

O que faz um grupo de homens ser seguro sem deixar de responsabilizar?

Para um homem falar de alguma coisa que costuma esconder, ele precisa sentir que existe alguma segurança naquele espaço.

Precisa conseguir contar que está com medo sem imaginar imediatamente que será ridicularizado. Dizer que não sabe. Reconhecer uma dificuldade na relação com os filhos. Falar de solidão, desejo, separação, fracasso ou vergonha.

Essa segurança importa.

Pesquisas sobre espaços comunitários masculinos oferecem evidências interessantes nesse sentido. Em estudos sobre Men's Sheds, segurança psicológica aparece associada a maior engajamento dos participantes; esse engajamento, por sua vez, se relaciona a redes sociais maiores, maior sentido de vida, mais bem-estar e menor solidão.

Mas existe um problema quando transportamos a ideia de segurança para grupos que pretendem refletir sobre masculinidades.

Nem tudo o que um homem diz em um grupo precisa ser protegido de questionamento.

Um participante pode trazer sofrimento e, junto dele, uma fala misógina. Pode falar sobre uma separação e revelar comportamentos de controle. Pode contar uma experiência de paternidade e naturalizar que toda a organização do cuidado continue sendo responsabilidade da companheira.

O sofrimento pode ser verdadeiro.

A responsabilidade também.

Um grupo reflexivo precisa conseguir sustentar as duas coisas.

Segurança não significa concordância

Um espaço seguro não é um lugar onde ninguém será contrariado.

É um lugar em que uma pessoa pode participar sem ser humilhada, ameaçada ou desumanizada, sabendo ao mesmo tempo que suas ideias e comportamentos podem ser examinados.

Essa diferença é fundamental.

Se segurança significar ausência de desconforto, qualquer questionamento poderá ser percebido como quebra do acordo do grupo. O participante passa a esperar que sua versão dos acontecimentos seja apenas acolhida.

Mas reflexão exige alguma possibilidade de deslocamento.

Podemos perguntar se havia outra maneira de interpretar aquela situação. Podemos apontar o impacto de um comportamento. Podemos trazer a perspectiva da pessoa que não está na sala. Podemos perguntar sobre poder, medo, controle ou responsabilidade.

O grupo continua seguro não porque protege o participante dessas perguntas, mas porque permite que ele permaneça na conversa enquanto elas são feitas.

Acolher sofrimento não significa retirar responsabilidade

Imagine um homem que chega a um grupo depois do fim de um relacionamento.

Ele está sofrendo. Dorme mal, sente falta da companheira, não consegue se concentrar no trabalho e tem medo de perder a convivência com os filhos.

Tudo isso merece escuta.

Durante o relato, porém, ele conta que verifica constantemente onde a ex-companheira está, envia dezenas de mensagens, exige respostas e aparece sem combinar nos lugares que ela frequenta.

O grupo pode seguir dois caminhos ruins.

O primeiro é ignorar os comportamentos de controle porque aquele homem está sofrendo.

O segundo é transformar imediatamente o homem inteiro naquilo que ele fez, interrompendo qualquer possibilidade de reflexão.

Existe um trabalho entre esses extremos.

É possível reconhecer a dor e perguntar sobre o comportamento. Ouvir a sensação de abandono e colocar limite para a perseguição. Acolher a pessoa sem normalizar aquilo que ela fez.

Isso exige que o grupo consiga trabalhar com uma ideia que às vezes parece contraditória: compreender não é absolver.

Nem todo grupo de homens transforma masculinidades

Essa distinção também aparece na literatura sobre intervenções com homens e meninos.

Uma intervenção pode reunir homens, melhorar saúde ou criar vínculos sem necessariamente questionar desigualdades de gênero. Uma revisão sistemática destacada pela Organização Mundial da Saúde mostrou que, entre programas que trabalham com homens e meninos em saúde sexual e reprodutiva, relativamente poucos eram realmente transformativos em relação às normas e relações de gênero.

Isso importa porque um grupo pode produzir pertencimento e ainda reproduzir relações de poder.

Homens podem sentir enorme apoio uns dos outros enquanto reafirmam hostilidade contra mulheres. Podem criar vínculos enquanto ridicularizam homens gays. Podem aprender a falar de vulnerabilidade e utilizar essa vulnerabilidade para evitar responsabilidade pelo dano que causaram.

Pertencimento, sozinho, não garante transformação.

Para um grupo que se propõe reflexivo, importa perguntar não apenas se os participantes se sentem bem naquele espaço, mas também o que aquele espaço permite questionar.

Responsabilizar não é humilhar

Existe também o risco contrário.

Em discussões sobre gênero, responsabilização pode ser confundida com constrangimento público.

Um participante diz alguma coisa problemática e o facilitador precisa mostrar imediatamente que aquela fala não será tolerada. A intervenção vira uma demonstração para o restante do grupo de que o facilitador sabe identificar o erro.

O homem aprende alguma coisa naquele momento?

Talvez.

Mas pode aprender apenas que determinadas coisas não devem ser ditas naquele espaço.

Isso é diferente de rever uma crença.

Humilhação pode produzir silêncio sem produzir elaboração.

Em determinadas situações, claro, o facilitador precisa interromper uma fala ou um comportamento. Segurança também significa proteger outros participantes. Racismo, misoginia, homofobia, ameaça ou violência não precisam permanecer circulando indefinidamente em nome da reflexão.

Mas interromper é diferente de encerrar o trabalho.

Depois do limite pode vir uma pergunta.

“O que você quis dizer com isso?”

“De onde vem essa ideia?”

“Como você imagina que essa situação foi vivida pela outra pessoa?”

“Alguém aqui percebe isso de outra maneira?”

Responsabilização pode ser um processo de ampliar aquilo que o participante consegue enxergar sobre a própria ação.

O grupo também precisa proteger quem não está na sala

Essa talvez seja uma das dimensões mais difíceis de grupos compostos apenas por homens.

Muitas histórias envolvem pessoas que não estão presentes para contar sua versão.

Uma companheira.

Uma ex-mulher.

Um filho.

Uma colega de trabalho.

Quando ouvimos apenas uma narrativa, é fácil organizar a conversa inteiramente ao redor do sofrimento de quem está diante de nós.

O papel da facilitação não é imaginar que conhece a versão da pessoa ausente. Também não é funcionar como tribunal.

Mas pode introduzir perguntas que impeçam que ausência seja confundida com inexistência.

Como aquela situação pode ter impactado a outra pessoa? Existia diferença de poder? Houve medo? Quem assumiu o trabalho que não apareceu na história? Que parte daquela relação o participante talvez não esteja conseguindo enxergar?

Trazer essas perguntas é uma maneira de ampliar o campo da reflexão.

Segurança é uma construção coletiva

Também não é apenas o facilitador que produz segurança.

Ela começa a aparecer quando o grupo percebe que determinadas regras valem para todos: confidencialidade, respeito, direito de não falar, possibilidade de discordar, ausência de humilhação e responsabilidade pelo impacto das próprias falas.

Com o tempo, participantes podem começar a fazer aquilo que inicialmente dependia do facilitador.

Um homem pergunta ao outro.

Outro oferece uma experiência diferente.

Alguém percebe uma contradição.

Um participante coloca limite.

Outro consegue dizer: “Eu já fiz algo parecido e hoje vejo de outra maneira.”

Nesse momento, o grupo deixa de depender exclusivamente da autoridade de quem facilita e começa a produzir sua própria cultura.

Talvez esse seja um dos sinais mais interessantes de maturidade de um grupo.

O desconforto também pode ser cuidado

Existe uma imagem de cuidado associada principalmente a acolher, proteger e confortar.

Tudo isso importa.

Mas, em um grupo reflexivo de homens, cuidado também pode significar não deixar um homem sozinho dentro de uma explicação que está machucando outras pessoas e talvez a ele próprio.

Pode significar fazer uma pergunta difícil.

Apontar uma contradição.

Recusar uma justificativa.

Permanecer ao lado enquanto ele tenta enxergar alguma coisa que preferiria não enxergar.

Um grupo seguro não precisa ser confortável o tempo inteiro.

Precisa ser suficientemente seguro para que o desconforto não encerre a relação.

E suficientemente responsável para que o acolhimento não se transforme em cumplicidade.

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