texto · do livro

o luto é uma luta?

Quando a Mi adoeceu, eu virei função.

Exame. Horário. Remédio. Consulta. Telefone. Resultado. Oxigênio.

Sempre havia alguma coisa para fazer. Se um exame vinha ruim, existia uma próxima decisão. Se a respiração piorava, havia um aparelho para conseguir. Se o remédio acabava, alguém precisava comprar. Se as crianças precisavam dormir, havia mamadeiras, banho, pijama, escola no dia seguinte.

Eu me agarrava a isso. Talvez porque fazer fosse mais fácil do que sentir.

Durante a doença, eu entendia o verbo lutar. Havia algo para enfrentar: protocolos, tratamentos, alternativas, prazos. Havia uma linguagem que fazia parecer que, com atenção suficiente, organização suficiente, força suficiente, talvez fosse possível manter tudo de pé.

Desmoronou mesmo assim.

Depois que a Mi morreu, as tarefas ligadas à doença desapareceram de uma vez. Não havia mais exame para buscar, médico para ligar, máscara de oxigênio para ajustar, próxima decisão clínica.

Mas meu corpo continuou em prontidão.

Eu seguia acordando como se alguma coisa fosse acontecer. Como se estivesse atrasado para resolver um problema que já não existia.

Passei então a organizar o que ainda era possível organizar: as roupas das crianças, os horários da escola, a comida, as contas, a casa. Como se colocar cada coisa no lugar pudesse impedir que alguma outra se perdesse.

Durante muito tempo, achei que isso fosse força. Eu dava conta. Era assim que eu entendia também uma parte de ser homem: resolver, antecipar, proteger sem fazer barulho.

Até que o corpo começou a cansar antes do dia terminar.

Foi nesse período que cheguei a um grupo de homens. Em um dos encontros, pediram que cada um levasse um objeto que representasse força.

Levei uma bota de peregrinação.

Ela tinha estado comigo no Caminho do Sol, no nascimento do Francisco, no enterro da Mi.

Coloquei a bota no centro da roda. Outro homem a calçou.

Eu fiquei descalço.

O chão estava frio.

Parece uma imagem pequena, mas meu corpo entendeu alguma coisa antes de mim. Eu tinha passado anos tentando continuar calçado para qualquer emergência. A bota servia para caminhar, sustentar, atravessar terrenos ruins. Era uma proteção.

Naquele dia, pela primeira vez em muito tempo, eu não tinha nada nos pés.

Não fiquei melhor.

Fiquei exposto.

Talvez tenha começado ali a desconfiar da palavra luta.

O luto tem mesmo alguma coisa de combate. Há dias em que levantar da cama exige uma força que ninguém vê. Há momentos em que é preciso proteger os filhos, sustentar a rotina, enfrentar documentos, datas, aniversários, perguntas, memórias que chegam sem aviso.

Mas existe também uma parte do luto em que lutar contra o que aconteceu só aumenta o cansaço.

A Mi morreu.

Essa frase não muda porque eu me esforço mais. Não existe vitória sobre ela. Não existe organização que devolva o que foi perdido.

Demorei para compreender que talvez a travessia não estivesse em vencer alguma coisa, mas em aprender a não transformar todos os dias numa guerra. Aceitar ajuda sem precisar justificar. Ficar sentado no chão com as crianças um pouco mais. Escutar até o fim. Não responder imediatamente. Permitir que alguém cuidasse de mim também.

Ainda tento organizar o luto em etapas, a saudade em caixas, a vida em metas.

Ainda falho.

Talvez porque o luto não seja uma tarefa que termina quando todas as etapas foram cumpridas. Ele se mistura à vida. Muda de peso, muda de lugar. Às vezes desaparece por algumas horas e volta quando você abre uma gaveta, ouve uma música, encontra um objeto, entra num café.

A armadura pesa quando já não há nada que ela possa proteger.

Talvez uma parte do luto seja luta.

Mas talvez outra parte seja exatamente o contrário.

Tirar a bota.

Sentir o chão.

E descobrir que, algumas vezes, não é preciso vencer nada.

É preciso conseguir ficar.

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por você eu faria isso mil vezes

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