onde Deus fica depois que alguém morre?
Durante o tratamento da Mi, nossa casa foi ficando cheia de sinais de fé.
Chegavam água benzida, imagens, orações, fotos de peregrinações, passes, mensagens, símbolos de tradições diferentes. A Mi recebia tudo. Não parecia preocupada em organizar aquilo numa explicação coerente.
Eu estava.
Antes do câncer, a fé tinha sido um lugar mais simples para mim. Depois do diagnóstico, começou a incomodar. Eu olhava para a doença e perguntava onde Deus estava.
A Mi respondia de outro jeito.
Ela brincava com as crianças, tomava café com pão na chapa, sorria para a enfermeira. Agradecia um dia sem dor, uma comida que conseguia engolir, uma respiração um pouco mais livre.
Quando amigos começaram a deixar potes de comida na nossa geladeira, ela segurou um deles e me disse:
— É assim que Deus age, Rafa. Através das pessoas. Das marmitinhas. Das pequenas coisas.
Eu ainda não sabia se acreditava em Deus.
Mas acreditava na Bruna.
Durante muito tempo, essa foi a resposta mais honesta que consegui dar.
No hospital, já perto do fim, entrei sozinho na capela. Eu tinha passado meses com raiva. Naquela tarde, sentei num dos bancos e falei baixo, sem saber muito bem para quem. Disse que estava ali. Disse que tinha culpado Deus. Pedi perdão. Pedi força.
Depois fiz um último pedido:
se estiver ouvindo, cuida dela.
O silêncio permaneceu.
Voltei para o quarto. A Mi morreu alguns dias depois.
Há perguntas que a morte não responde. Ela apenas deixa maiores.
Durante algum tempo, achei que precisaria escolher entre duas possibilidades: manter a fé que eu tinha antes ou abandoná-la de vez. Nenhuma das duas coisas aconteceu exatamente assim.
A certeza perdeu espaço. As explicações também.
Quando voltei ao cemitério pela primeira vez, no aniversário dela, levei uma rosa vermelha e parei diante do nome gravado no bronze. Falei com ela. Contei das crianças, da escola, do cansaço, das pequenas vitórias que ela não tinha visto.
Não fiquei pensando se aquilo fazia sentido dentro da religião em que fui criado. Eu só precisava falar.
Ainda faço isso.
Não é oração. Também não é pedido. Eu não espero resposta.
Acho que foi aí que minha relação com a fé mudou de lugar. Talvez eu tenha parado de procurar Deus apenas nas explicações e passado a perceber mais aquilo que as pessoas fazem umas pelas outras quando nenhuma explicação basta.
Isso não resolve a questão de Deus.
Não pretendo resolver.
A morte da Mi não me deu uma resposta espiritual mais sofisticada. Não me tornou alguém que entendeu os mistérios da vida. Algumas perguntas continuam exatamente onde estavam: se existe vida depois da morte, se existe reencontro, se existe algum lugar onde as pessoas que amamos continuam de uma forma que não consigo compreender.
Eu não sei.
O que sei é que a vida continuou me pedindo presença aqui. As crianças acordavam. Precisavam de café da manhã, uniforme, escola, abraço, bronca, colo. A casa continuava produzindo louça. O pão continuava esfriando sobre a mesa. Os amigos continuavam tocando a campainha.
Talvez por isso a pergunta tenha mudado um pouco para mim.
Em vez de apenas “onde está Deus?”, comecei a perceber outra: onde está o cuidado quando a vida fica insuportável?
Às vezes encontrei esse cuidado dentro de uma igreja. Às vezes, numa conversa.
Muitas vezes, dentro de um pote de plástico na geladeira.
Ainda não sei onde Deus fica depois que alguém morre. Talvez eu nunca saiba.
Mas continuo prestando atenção nas pequenas coisas.